sexta-feira, 6 de abril de 2012

A festa das flores

Da montanha descia uma nascente até um lago, onde havia a vida, como tudo a sua volta, que a neve restaurara dando lugar a profundos zumbidos, brilhantes mudas e alegres assobios.
O Sol sorria ingênuo e sincero, trazendo consigo ainda um pouco do hálito noturno. Gélido soprava ao dizer. Deitados na grama que havia acabado de brotar, o vento nos acariciava a pele enquanto éramos aconchegados pelo abraço morno da manhã.
As névoas começavam a se dissipar e a visão tornava-se definitivamente nítida. Apenas complementando os outros sentidos. O homem com coroa observava severo, como um maestro preparando a orquestra.
As pétalas das cerejeiras sorriam. Em suas verdades de quem realmente eram por vezes como pérolas negras vindas do fundo do mar. Como os grandes caçadores podiam amar suas esposas.
Estátuas de pedra agora acordavam e se espreguiçavam. Largando no chão suas peles mortas e esticadas. A paisagem misturava-se aos cheiros e sons. Doces, suaves. Era a festa das flores.
A aurora irradiava uma atmosfera de explosões rosa alaranjadas, com borrões azuis-bebê. Luz que refletia-se e propagava nos olhos abertos. A luz do vivo, continuo como um rio, porém multável. Uma veia cheia de sangue venoso pronto para ser oxigenado na próxima puxada de ar da própria necessidade.
Da ausência do medo de ser livre. Da coragem para sobrevivermos a essa suave manhã misteriosa e imprevisível, por consequência de sempre sobrevivermos a ultima noite. 
JoãoLira


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