Num ambiente de curvas meio duras, meio retas, onde uma
densa neblina húmida e quente que parecia fluir da pele suada de quem está
dando duro seja nas mesas, seja no topo do palco, ou seja nos arredores pairava
escondendo as coisas.
Cheiro de couro, pele enrugada, cabelos, de dinheiro, som
de vozes. A polaca dançava, mais parecia uma lacraia, porém espantosamente
atraia olhares, talvez por sua pele clara, tão clara quanto as nuvens, ou quem
sabe seus olhos de esmeralda, ou seus cabelos ruivos, cacheados, cabelos que
eram realmente belos.
Talvez simplesmente por ser diferente.
A polaca dançava, vendia, sofria, buscando noutra terra
um espaço que ela nunca teve por lá.
Mas mesmo não se encaixando em lugar nenhum ela está em
todos os lugares. Em todas as conversas.
-Temos uma polaca na cidade.
-Oh, quando vamos vê-la?
Recriminada, descriminada, atacada, arrasada, e mesmo
assim ela dançava, vendia, sofria, seguindo seu plano inquebrantável de
encontrar nessa Terra seu espaço. Ela sabia, todos estavam deslocados.
JoãoLira

