Então eu acordei, com uma lagrima em cada olho, e lembrei-me do que havia lido ontem, sobre as cartas do tarô, de quem era aquele numero. As enxuguei e levantei, mas ainda permaneci no leito, me lembrando de cada detalhe do que aconteceu.
Até que vi o chaveiro nas chaves do quarto, onde se lia: Honra ao mérito. Então eu pensei: - Hein?! Mérito de quem?
Só então percebi...
Era o 4° dia de janeiro de 2012, deveria fazer uns quatro meses que nos conhecíamos, ou pelo menos que eu conhecia. Sempre fui muito supersticioso com números, duas lagrimas do dia 4, e quando eu liguei a televisão, deixada ontem a noite no modo vídeo, ela estava chiando, no canal 44. Isso para mim foi um espanto, literalmente, só eu mexi naquela televisão, como era possível?
Mas logo me recompus e lembrei que naquela hora da madrugada, nada era impossível.
Virei-me, e olhei para o lado da janela, sem olhar para o mundo a fora, nem muito menos para a própria janela. Enquanto ouvia vindo do ar a minha volta, uma velha amiga. Uma melodia predileta. Que sempre estivera comigo em momentos tristes, provando sua amizade nesse momento que ainda não sabia distinguir qual era.
Fitava o vazio, o pó, enquanto aquela velha amiga me embalava em sua canção de ninar. Eu ainda podia sentir o que primeiramente foi um sonho mudo, agora tomando, o som. E que som bom, enquanto repetia junto, em sussurros, baby I have no suprised that I got a lost, in your brown eyes.
O Sol já havia realizado sua entrada gloriosa, com seu coro magnífico de pássaros anunciando sua chegada, e seu calor, inconfundível. Clarão que me confundia os sentidos e ardia a pele. Renovador.
Queria muito ler meu horoscopo de hoje, mas eu me fiz o conveniente favor de ultrapassar o limite da franquia, e só seria possível lê-lo na sexta feira.
Eu não ia lê-lo, aprendi que deixar tudo nas mãos do “destino” é uma atitude covarde, e até muito preguiçosa.
Quem deixa tudo na mão do destino é uma pessoa preguiçosa e incompetente consigo mesma, que ao invés de perseguir seus objetivos, nada fazem, simplesmente sentam, leem o horoscopo, e esperam que as coisas aconteçam.
E eu não sou assim, muito menos depois da noite passada.
Você tem que merecer.
Enquanto a temperatura esquentava ainda mais, eu pensava. Como é que eu podia ter me confundido de novo? Já havia perdido as contas. E tenho 17 anos, quase 7, mas eu não posso negar nada que eu sentir, por mais que por ventura eu venha a negar algo, nunca para mim mesmo.
Meus lábios ainda doíam. Minha pele e meus cabelos ainda estavam arrepiados, e meus olhos ainda fitavam o vazio. Não podia continuar inerte. Mesmo sendo tão difícil me levantar dali era preciso. Reuni todas as minhas forças, desde o momento em que nasci das risadas da infância, das incertezas de hoje, e transformei aquele momento em uma bolinha de energia meio branca, meio lilás, uma ametista. E levantei.
Precisava tomar um banho, enquanto meditava tentando ter mais paciência. Era preciso.
Ao sair da minha cúpula, que devia ser particular, já escutava os gritos dos meus pais, brigando pelo mesmo assunto de anos atrás, algo sobre uns livros velhos em braile que meu pai tinha e minha mãe sem saber que ele ainda os queria havia mandado a empregada jogar fora.
Era impressionante como eles conseguiam brigar pelas mesmas coisas todos os dias, será que eles não viam o quanto aquilo além de ridículo era autodestrutivo, desgastante? Como se não bastasse, o infeliz do pedreiro para variar com seu radio ligado, eu não aguentava mais aquilo, meus pais gritando e um projeto de mulher com voz fanha no radio cantando as magoas da sua vida miserável.
Por isso que era preciso paciência, tinha que ter foco, estudar, passar para medicina veterinária, e ir morar em areia, bem longe de tudo isso, ser uma espécie de visita de casa, pra ver se assim as coisas se tornavam mais leves.
Estou cansado de reclamar de tudo, precisava tomar uma atitude. Eu possuía um projeto antigo, mas por minha falta de paciência, evidente falta de paciência, nunca havia o posto em prática.
Devia me comportar da melhor forma possível, como se vivesse em um ambiente normal, quem sabe assim as coisas não se ajeitassem. E era o que faria.
Pois eu havia ganhado meu troféu de honra ao mérito por um motivo. Pelo meu mérito, acredito que cada um escolhe quem quer ser, porem nem todos tem a maturidade de fazer as escolhas certas, por isso se tem tantas mazelas por ai.
Seria meu mérito. Desde aquele momento, inflexível, não havia escapatória. Vesti-me, e segui pela sombra.
Antes de sair, lembrei-me das duas lagrimas. Cada lagrima derramada por dor, que escorre pelo meu rosto flui como uma pedra. As lagrimas derramadas fluíram naturalmente. Lagrimas de pureza alegria e paz. Lagrimas de amor.
JoãoLira