sexta-feira, 13 de julho de 2012

O tempo


Certo dia, caminhando pela praia ao amanhecer lembrei-me de alguém, que há tanto tempo havia esquecido, mas mesmo assim ainda fazia parte das minhas lembranças.
Então comecei a chamar seu nome.
Procurei por você o dia todo, mas você não apareceu, então a noite, fui para casa exausto dormir.
No meio da noite acordei porém não estava mais em casa, estava numa praia deserta, me sentia fraco, como se minha mobilidade estivesse comprometida. Não podia correr, meus reflexos estavam estupidamente inúteis.
Olhei em volta incrédulo, como aquilo teria acontecido? A um momento atrás eu estava dormindo em casa, e agora aqui... Comecei então a procurar alguém, qualquer um, mas não havia nenhum sinal de ninguém por perto.
Cai sentado na areia macia, aos soluços, estava assustado e me sentindo sozinho, e minhas lágrimas como sempre teimando em não saírem.
Ainda atordoado senti algo sob mim, era uma máscara, dessas de mergulhador. A limpei no mar e comecei a explora-la, vi que nela estava escrito: Coragem, força e esperança. Por algum motivo aquelas três palavras foram muito significativas para mim, me fizeram parar, simplesmente sentir a noite serena a minha volta.
E fiquei ali, na praia, horas a observar as ondas, até que decidi ir com minha máscara nova a um mergulho. Entrei no mar e mergulhei para o oceano dos tempos.
Passei pelo passado, nosso. O passado de tudo e de todos, e a medida que mergulhava, o tempo ia passando, e o agora ia virando passado, ia virando futuro. Um futuro inevitável e indestrutível encontrava-se completamente vazio.
De formas imortais, que absorviam as eras impedindo que a vida fosse achatada , esmagada e destruída.
Por todos os lugares que passei podia atravessar as coisas, como se fossem apenas uma miragem, menos no futuro, onde tudo estava sólido e de cabeça para baixo.
O que me fez pensar se já estaria nele, ou ainda falta muito tempo para alcança-lo. Com a consciência cheia, voltei a praia, ao meu tempo, e não voltei de mãos vazias, por todos os lugares que passei em minha viagem fantástica adquiri muitas riquezas, havia ganhado a habilidade de entender.
Aprendi que com os erros aprendemos, e que quem não conhece os erros do passado e os aceita, está condenado a errar para sempre.
Sai do oceano, onde o que se esconde só é encontrado se quiser, o vago obscurecimento da consciência. Onde estão todos unidos, lado a lado, porém invisíveis, impalpáveis.
De épocas não perdias trazemos nosso legado, nosso honrado sangue, pois tudo oque algum dia foi jamais deixa de ser. De épocas que talvez nunca sejam atingidas, seja por louvável amadurecimento, ou pela falta dele. Mas que também jamais deixaram deixarão de ser.
O tempo é só a forma mais simples que encontramos para aprender sobre os nossos próprios mistérios.
Quando voltei a praia, o dia já raiava, era a praia que eu estava ontem-hoje.
Abri um sorriso bem humorado, senti a brisa alisar os meus cabelos, enterrei a máscara na areia e voltei a te procurar.
            Com mais uma certeza no meu coração: Nunca desista da sua força, nunca perca sua coragem e nunca, jamais, mate sua fé.

JoãoLira

domingo, 24 de junho de 2012

New Born


Eram os últimos dias, ate ali muitas vezes aprendi com meus erros, e muitas vezes sem errar. Sem medo, que mude, que seja completamente diferente. Que venha...
Aprendi enfim que não existem coisas mais valiosas que outras, roube o cobertor de um mendigo e você verá que as coisas tem o valor que nós damos para elas. Valorizar o que se tem é se valorizar, valorize-se, e nunca se envergonhe de quem é, por que o que você é, nada mais é do que um reflexo do seu livre arbítrio.
Há um gato. Havia... Há! Um gato branco, que passa, atrai para um lugar, num bosque. Um bosque seco e sombrio, de arvores negras. Nesse bosque havia uma clareira, onde... Há uma clareira... Onde se reuniam ao redor de uma fogueira 13 pessoas dançantes frenéticos, encapuzados, mantas cada uma de uma cor. Rosa Azul Preto Vermelho Laranja Marrom Cinza Bege Verde... cores frias... opacas, pouco destacadas... O que realmente fazia destaque... Faz... naquele ambiente tão simples, era a enorme fogueira, que tornava todo o lugar algo mais complexo.
Naquela clareira a chuva era curiosa... É!... a chuva caia ao contrario... Enfim.
A chuva caia ao contrario, e da fogueira saiam formas animalescas, espíritos brancos porém nem todos bons. Na clareira, abraçados pela arvore negra consumidas pelas eras, todos dançavam. Alguns engoliam discos de pura energia, de toque ácido que perfurava a língua de um lado ao outro...
Mas cadê aquele homem que estava ali agorinha mesmo? Caiu morto e murchou. Enquanto um gato assistia a tudo isso, imparcial, sentado numa pedra. Um gato branco de olhos vermelhos.

            Os céus se enchiam luxuriosos de uma gulosa soberba, vaidade carregada pelas aguas terrenas. Era um novo começo, New Born.
As vozes desafinadas lamentavam pelo que não vem, enganados, pensando que clamavam... na verdade clamavam pelo fim.  A fênix cintilante pairava sobre nós, com um sorriso maligno e malicioso nos olhos, como um urubu, espreitava nossa carcaça. O apodrecer de um recomeço.
De corações dormentes. Mãos ávidas. Pele cálida e olhos grandes.




JoãoLira

quarta-feira, 30 de maio de 2012

A Polaca


Num ambiente de curvas meio duras, meio retas, onde uma densa neblina húmida e quente que parecia fluir da pele suada de quem está dando duro seja nas mesas, seja no topo do palco, ou seja nos arredores pairava escondendo as coisas.
Cheiro de couro, pele enrugada, cabelos, de dinheiro, som de vozes. A polaca dançava, mais parecia uma lacraia, porém espantosamente atraia olhares, talvez por sua pele clara, tão clara quanto as nuvens, ou quem sabe seus olhos de esmeralda, ou seus cabelos ruivos, cacheados, cabelos que eram realmente belos.
Talvez simplesmente por ser diferente.
A polaca dançava, vendia, sofria, buscando noutra terra um espaço que ela nunca teve por lá.
Mas mesmo não se encaixando em lugar nenhum ela está em todos os lugares. Em todas as conversas.

-Temos uma polaca na cidade.
-Oh, quando vamos vê-la?

Recriminada, descriminada, atacada, arrasada, e mesmo assim ela dançava, vendia, sofria, seguindo seu plano inquebrantável de encontrar nessa Terra seu espaço. Ela sabia, todos estavam deslocados.

JoãoLira

terça-feira, 29 de maio de 2012

Estou com você


Alpha, ômega, marfim, vidro, diamante, ametista, diamante, piano, .
Alpha, libélulas, pavões, serpentes, felinos.
Penumbra boca de bosque-breu breu, borrado à solidão não, a companhia, não, ao companheirismo.
Chuva brilhante de céu purpura, o olho fogo lambe a vegetação transformando anos de desenvolvimento em , recomeço, fênix, preto, laranja, preto. Fogo. fogo

Um caminho, quatro pés, duas bocas que falam:

-Sentirei;
-Sinto.
-Mas eu ainda estou aqui.
-Sentirei.

De repente duas mãos entrelaçam-se, olhos em frente em brasa, momento alterado.

-Não mais, estou com você.

Ômega, água, felinos, água, pedras. Cervo em chamas.
Mana, ar, mana. Éter.

-Sempre.
.Lira


sexta-feira, 6 de abril de 2012

A festa das flores

Da montanha descia uma nascente até um lago, onde havia a vida, como tudo a sua volta, que a neve restaurara dando lugar a profundos zumbidos, brilhantes mudas e alegres assobios.
O Sol sorria ingênuo e sincero, trazendo consigo ainda um pouco do hálito noturno. Gélido soprava ao dizer. Deitados na grama que havia acabado de brotar, o vento nos acariciava a pele enquanto éramos aconchegados pelo abraço morno da manhã.
As névoas começavam a se dissipar e a visão tornava-se definitivamente nítida. Apenas complementando os outros sentidos. O homem com coroa observava severo, como um maestro preparando a orquestra.
As pétalas das cerejeiras sorriam. Em suas verdades de quem realmente eram por vezes como pérolas negras vindas do fundo do mar. Como os grandes caçadores podiam amar suas esposas.
Estátuas de pedra agora acordavam e se espreguiçavam. Largando no chão suas peles mortas e esticadas. A paisagem misturava-se aos cheiros e sons. Doces, suaves. Era a festa das flores.
A aurora irradiava uma atmosfera de explosões rosa alaranjadas, com borrões azuis-bebê. Luz que refletia-se e propagava nos olhos abertos. A luz do vivo, continuo como um rio, porém multável. Uma veia cheia de sangue venoso pronto para ser oxigenado na próxima puxada de ar da própria necessidade.
Da ausência do medo de ser livre. Da coragem para sobrevivermos a essa suave manhã misteriosa e imprevisível, por consequência de sempre sobrevivermos a ultima noite. 
JoãoLira


terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A resposta de Eris

Somente paz não é suficiente, a tranquilidade, prosperidade e sucesso não bastam, se num grau elevado ou baixo demais, pois relaxa e inutiliza.
De onde tiramos a importância do Caos. Te põe em prova, obrigando que a evolução aconteça, te obriga a se superar e se tornar ainda melhor.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Espera...


Sabe aqueles dias que já começam dando tudo errado, era um dia desses na vida do Paulo Roberto. Ele já acordou gritando por que seu celular havia descarregado e ele estava atrasado para a faculdade.

-Ai que ódio! Essa porra desse celular... PQP! E você ein mãe, você nem pra acordar a pessoa presta, não notou que eu tava atrasado? Custava dar uma ajuda e me chamar?

Mas eu sabia que se eu fosse acordar ele, ele ia ter uma reação parecida, ou até pior. Mas eu preferi não me importar com as agressões dele, como sempre fazia, e ajeitar um lugar para ele a mesa do café.

-Ai tu jura que eu vou ter tempo de comer não é? Só pode ser piada haha. Me da essa porcaria que eu vo ter que sair correndo.

Ai meu filho, se você soubesse o quanto isso machuca, todos a sua volta estão se afastando de você .
-Cade a porra das chaves da minha moto?

Nesse momento senti que algo estava errado... tentei alcançar as chaves antes dele e impedi-lo de sair, ele estava muito alterado, podia ser perigoso, mas ele era mais ágil que eu, e pegou a chave primeiro.

-Osh, ta doida? Voce já deu a moto pra mim, agora já era, não pode tomar.
-Meu filho, não va de moto hoje, chame um taxi...
-E gastar meu dinheiro? Dinheiro que eu podia usar pra sair, ou até pra botar gasolina na moto?
-Meu filho por favor, me escute, meu coração ta apertado, você esta muito alterado, por favor meu filho va de taxi, eu pago.
-Sai mãe me solta, to atrasado... SAAAI MÃÃÃE!
Naquele instante, me senti impotente diante da brutalidade do meu filho, ele estava muito chateado pelo fato do pai ter ido embora e desde então estava descontando tudo em cima de todos nós, na verdade, só tinha restado eu. Mesmo sofrendo muito com tudo isso, mas ele era meu filho, eu não podia deixa-lo só.
Mas já era tarde demais, ele já estava em cima moto acelerando cada vez mais, enquanto eu so pude fazer mais um ultimo apelo. O ultimo de todos

-Espera...

Na esquina da nossa rua, bem na frente dos meus olhos, vi meu filho engavetar-se com sua moto num carro.
Meus olhos viraram pedra, minhas pernas morreram e eu cai me debatendo de dor no chão. Meu filho!

-MEEU FILHOOOO!!!

Todos na rua correram devido ao barulho do impacto do aço, em instantes a rua estava mais cheia do que nunca esteve, varias pessoas faziam um circulo ao redor do acidente e algumas tentavam me levantar enquanto minha carne doía, meus olhos sangravam e meu coração dava nós.
Consegui me equilibrar, e nesse momento corri ao encontro do meu filho, ele era meu filho, não importava o quanto as pessoas dissessem “Não deixe ela passar, não deixem!” eu passava por cima de todos.
Esperei por ele, concebi-o, cuidei dele dentro de mim por 9 meses, o amei, o vi crescer, conquistar seus objetivos, sofri junto com ele suas decepções... Ele não podia ter morrido, ELE NÃO PODIA.
Quando cheguei la, meu coração parecia uma explosão, mas não adiantava mais... Eu enlouqueci.

JoãoLira

Continua...